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Gaia Residência de Idosos, nasceu de uma inspiração doméstica, em Setembro de 1988. Uma
tia idosa, teve uma queda viajando com amigas. Após uma vida de cuidadora, responsável pelo atendimento
ao pai, mãe, irmão dependente, irmão solteiro; em viagem, uma queda roubou-lhe a visão.
A situação imediata de dependência descortinou-lhe uma única possibilidade. Como pretendia que seus
laços com a família continuassem belos; do alto de sua experiência como cuidadora, sugeriu às
jovens e inspiradas sobrinhas que procurassem uma instituição para a sua moradia. Solícitas,
iniciaram uma maratona que não foi muito bem sucedida. As casas disponíveis à época, não correspondiam
às suas expectativas de acolhimento, tanto no sentido subjetivo quanto concreto. Ou construções
enormes que dizimavam qualquer possibilidade de “íntimo” ou espaços acanhados, próximos à ideia
medieval de clausura.
A vida pode ser definida assim: uma sucessão de fatos que, como num livro, você lê e interpreta.
Com a realidade e a subjetividade, criamos a Gaia, que leva o nome da deusa grega “mãe terra”.
A filosofia que nos arrima é já uma direção: acolheríamos a tia Vita e pessoas contemporâneas
a ela num espaço de vida, contemplação, música, informação, arte e cuidados.
Acolheríamos também a vida abandonando o corpo, os seus efeitos e possibilidades, pois há uma diferença
enorme para o Homem morrer a sua morte e ser morrido. Depois de uma vida vivida, merecemos ser
acompanhados nesse que pode vir a ser um tempo de conclusão e de entrega. Pode haver nesse tempo
uma inegável beleza.
Filosofia posta, sucedeu-lhe o trabalho de concretude; de verter para o dia a dia o convite ao pertencimento,
ao envolvimento e à eleição das pessoas que sucessivamente aproximaram-se do trabalho: moradores,
funcionárias, médicos, especialistas, solidários, estudantes, instituições, curiosos – todos
muito benvindos!!
Para as famílias, portas abertas!
Exceto o período matinal, quando predominam banhos, curativos, fisioterapia, caminhadas, ginástica,
programa de hidratação e cuidados afins.
Criamos espaços diversos que solicitam movimentação contínua: refeitório – lindo, alto, de frente
para a beleza de árvores, também idosas, amarelas à época, depois descuidadas – inundam de flores
o chão, sugerindo que o tempo existe. O movimento da rua, exibe um desfilar de carros e pessoas.
Esse espaço, múltiplo, após as refeições, transmuta-se em atelier de artes na segunda feira; em atividades
com jogos de madeira na terça feira e tapeçaria na quarta feira.
Mais espaços se constroem na medida em que as pessoas vivem a casa. Na quinta feira cinema na sala
da lareira e na sexta feira audição de piano. Uma pequena biblioteca instiga três leitoras assíduas.
Fisioterapia, cabeleireira e banhos de sol (menos frequentes do que desejamos) insistem em comunicar
um a um, sublinearmente, que há Vida Ainda.
E que no mais além, a morte-um-enigma, pode inspirar admiração, libertação. Pode inspirar beleza
pode estender-se numa surpresa enigmática ou numa conclusão.
É uma honra acompanhar tantas histórias.
A Gaia conta com um corpo de funcionários de 24 pessoas, voluntários e prestadores de serviços totalizando
um atendimento especializado para o velho de 40 pessoas de equipe multidisciplinar.